Brincar é coisa séria

Novembro 9, 2009

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Hoje lí matéria que será publicada em revista que estamos fazendo para o Instituto Brincante. É com a educadora Maria Amelia Pinho Pereira, criadora da escola Casa Redonda. Fiquei sensibilizado com as palavras dela: “Quer saber como se faz uma escola? Vá para a natureza e siga os meninos”. Essa frase foi dita a ela por um professor e a fez mudar o conceito de educação infantil e a criar a Casa Redonda.

Pensando nisso lembrei de um texto de Frei Betto escrito em 2001 para o Almanaque Brasil. Coloco abaixo.

 

Por Frei Betto

No oitavo andar, mesmo descalço, estou distante da superfície. Há uma montanha de cimento e ferro entre meu corpo e a terra que produz alimentos e flores, abre-se em rios e mares, acolhe pedras e absorve chuvas.

Desço e, a caminho do trabalho, sou transportado por um veículo que me mantém a certa distância do dorso do Planeta. Trafego por avenidas que já foram rios e ruas que vedam as costas de nossa morada cósmica com uma densa camada de asfalto.

Subo no elevador, essa caixa metálica que nos distribui por salas e escritórios, marionetes agitadas de um gigante invisível que ri de nossa sofreguidão. À hora do almoço, piso calçadas espessas com meus pés cobertos por grossas solas de material sintético.

Nunca deixo meu corpo em contato direto com a mãe Gaia. Meu computador tem um fio-terra, mas eu não. Guardo em mim toda energia acumulada, excessiva, que dilata gorduras que entopem artérias, faz desabrochar úlceras, prepara o coração para o infarto e aquece a tensão que me torna irritadiço e estressado.

Não tenho nenhum canal aberto por onde a energia acumulada possa fluir e descarregar. Não piso a relva para não sujar os pés; temo me arranhar na aridez das pedras; e quase nunca mergulho no mar, cuja salinidade opera o descarrego do corpo. Ser aéreo, trafego sem contato direto com o Planeta que é minha terra mátria. Dele sugo a vida e minha própria história biológica e psíquica. Nosso percurso rumo à vida teve início, juntos, há 3,5 bilhões de anos, quando começou a resfriar o calor que revestia este fragmento de Sol.

Carregado pela fita isolante que me envolve, não piso na Terra e, por isso, piso em meus semelhantes. Impaciente, reajo bravo a todo contratempo e trago a intolerância como escudo. Sou um filho de Gaia que cortou o cordão umbilical, como se eu pudesse dispensar o leite materno. Já não intercambiamos energias. Meus pés, guarnecidos por meias e sapatos, servem apenas para movimentar as pernas. Assim, isolo meu corpo e isolo o corpo do Planeta, escondendo-o sob pedras, areia, asfalto e prédios.

Enterro a Terra. Sem me dar conta de que, de fato, construo minha própria tumba, tão lacrada quanto as dos faraós. A diferença é que eles as ocuparam quando mortos. Eu ocupo um espaço muito mais amplo do que as pirâmides. Vivo no imenso sarcófago da megalópole, cujos shopping-centers são pirâmides estilizadas. Ouço cada vez mais o sussurro dos mortos, e menos o hálito saudável de Gaia.

Sou um desterrado. E ainda insistem em me convencer de que isso é progresso.


Coronelismo

Novembro 6, 2009

Meu querido Myltainho, colaborador do Almanaque, mandou um email ontem dizendo que ao lançar o livro, Honoráveis Bandidos, em São Luiz, que fala das armações da família Sarney, no qual ele foi editor, foi agredido por manifestantes pró Presidente do Senado. Inacreditável!

…be, olha o que enviamos a ABI e Fenaj. Eu levei um ovo no meio do peito, mas podia ter sido uma pedrada! Os caras são demais.

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Capa do livro

Os jornalistas abaixo-assinados, Palmerio Dória e Mylton Severiano, denunciam aqui a ação fascistoide de um grupo de jovens, a mando do grupo ligado a José Sarney, em São Luís do Maranhão.

1. Antecedentes. Palmerio, autor do livro Honoráveis Bandidos, da Geração Editorial, e Mylton, co-autor, a convite de jornalistas de São Luís, aceitaram lançar o livro na capital maranhense, ontem, dia 4 de novembro de 2009, às 19 horas. Para começar, nenhuma grande livraria local, ou entidade, aceitou promover o evento, além do que nem sequer aceitam o livro em suas prateleiras. Até que, lembrado o Sindicato dos Bancários, suas portas se nos abriram e para ali ficou marcado o lanç amento. Na antevéspera, mais um ato que lembra métodos fascistas: a empresa responsável pelos outdoors que anunciavam o evento devolveu o dinheiro aos promotores e mandou “raspar” as peças.

2. O clima à nossa chegada, na terça, véspera do ato, começou a ficar “esquisito”, quando na coletiva à imprensa, numa sala do Sindicato, alguns colegas nos perguntaram se a gente não tinha “medo”. Falou-se em “corte de energia” durante o evento, brincou-se com a possibilidade de cada um levar uma vela, e alguns dos colegas não descartaram até atos de violência. À noite, em programa ao vivo na rádio Capital, vários ouvintes nos alertaram para aquelas possibilidades – “ele são capazes de tudo”, “cuidado”.

3. Ontem, quarta, no fim da manhã, uma colega, Jane Lobo, mais realista, aconselhou – e acatamos – a pedir proteção.

4. Veio a noite. O auditório do Sindicato dos Bancários, na Rua do Sol, estava superlotado, havia muita gente em pé. Um ambiente familiar – gestantes, gente idosa, crianças pequenas e grandes, estudantes. Por ali passaram mil pessoas.

5. Iniciada a sessão pelo coordenador Marcos Nogueira, quando Palmerio passa a falar sobre o conteúdo do livro, eis que do nosso lado direito uma vintena de jovens, na maioria rapazes e umas poucas moças, prorrompem em berros, aos poucos distinguimos “Jackson ladrão, envergonha o Maranhão”, “mentira”, “viva Sarney”. As pessoas mais próximas se levantam e se afastam, abrindo um claro. Os baderneiros abriram suas camisas, pondo à mostra uma camiseta em que se lia Navalhada de Bandidos e atrás de grades Jackson Lago, o governador que a família Sarney derrubou num golpe do judiciário. Dentre os baderneiros, um rapaz, possesso, ergueu uma das pesadas cadeiras e a arremessou na direção do palco onde estávamos. Imediatamente uma chuva de objetos voou sobre a mesa – bolas de papel molhado, ovos e até pedras – junto com xingamentos e outros impropérios.

6. Seguiu-se um quebra-quebra, pancadaria, promovida pelos baderneiros.

7. Passada a estupefação, os presentes mais os seguranças providenciados pelo Sindicato passaram a expulsar os baderneiros do local aos tapas e empurrões. Boa parte do público se retirou, preocupada, “eles vão voltar”.

8. Reiniciado o ato, os presentes cantaram Oração Latina, puxada ao violão pelo cantor e compositor Cesar Teixeira. A platéia e políticos, das mais diversas extrações, se deram as mãos durante o canto.

9. Felizmente nenhuma criança se feriu. Uma pessoa das relações de Jackson Lago foi buscar seu carro na rua de trás do Sindicato, Rua dos Afogados, e testemunha: ali havia cinco viaturas da PM, esperando o quê, não se sabe. E, praticamente no mesmo instante, menos de cinco minutos depois, Décio Sá, jornalista “guerrilheiro” dos Sarney, que se encontrava em Fortaleza, já postava em seu blog notícia em que os baderneiros viraram estudantes que protestavam contra o lançamento do l ivro e “foram atingidos por cadeiras, pedras, socos e pontapés e revidavam como podiam”.

10. Enquanto os autores retomavam a sessão, um grupo foi à delegacia de polícia mais próxima registrar B.O., Boletim de Ocorrência. Dissemos que os baderneiros vieram a mando do grupo ligado a José Sarney e eles próprios, desastrados, se encarregaram de deixar prova cabal: uma moça, Ana Paula Ribeiro, tida nos meios estudantis como “estudante profissional”, ao sair correndo deixou cair a bolsa, com sua identidade dentro. A moça trabalha simples mente com Roberto Costa, secretário de Esporte e Juventude da governadora Roseana Sarney.

11. Toda a confusão armada pelos baderneiros foi fotografada e filmada por profissionais contratados pelo evento.

12. Mesmo com este ataque fascistoide, Palmerio e Mylton assinaram mais de 500 livros, o que demonstra a sede de informação sobre a família que há meio século governa o Maranhão.

Palmerio Dória e Mylton Severiano
São Luís, 5 de novembro de 2009


O outro lado da história

Novembro 2, 2009

Ganhador absoluto no Festival de Cinema de Gramado desse ano.

“Em 1985, o indigenista Marcelo Santos, denuncia um massacre de índios na Gleba Corumbiara (RO), e Vincent Carelli filma o que resta das evidências. Bárbaro demais, o caso passa por fantasia, e cai no esquecimento. Marcelo e sua equipe levam anos para encontrar os sobreviventes. Duas décadas depois, “Corumbiara” revela essa busca e a versão dos índios…”

Vale muito a pena.


Pular na água

Outubro 29, 2009

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Como sabem tenho há um ano um bar especializado em cervejas, por conta de um sócio que é um especialista tenho tido contato com esse universo.

Nesses últimos meses tenho ouvido falar muito de lúpulo, malte, cevada, teor alcoólico, toques frutados, aromas, sabores e etc.

Na segunda passada fui em uma Micro Cervejaria chamada Bamberg, que faz um excelente chope pilsen sem produtos químicos. Estamos produzindo uma cerveja especial que leva romã na fórmula.

Não é sobre a cerveja que quero falar, mas sim sobre processo de aprendizado. Até então, tinha uma dificuldade enorme para conseguir distinguir os elementos da cerveja no simples paladar ou olfato.

Ao entrar na cervejaria e sentir o aroma do malte sendo cozido naqueles tanques gigantes eu comecei a entender do que estávamos falando, e assim para cada etapa da produção da cerveja.

Nosso processo de aprendizado precisa passar pela experiência sensorial, alem da leitura que é indispensável nossos sentidos nos ajudam a perceber e fixar o conhecimento. Pelo menos é assim comigo.

Quer nadar? Precisa pular na água.


Os da Vila

Outubro 25, 2009

O samba de Noel Rosa, Feitiço da Vila composto em 1934 termina assim:

… Eu sei tudo o que faço
sei por onde passo
paixão não me aniquila
Mas, tenho que dizer,
modéstia à parte,
meus senhores,
Eu sou da Vila!

Martinho da Vila, outro gigante do mesmo bairro acaba esse mesmo samba cantando:

… modéstia à parte,
meus senhores,
Eu sou, o da Vila!

Em 2010 depois de muitos anos, Martinho volta a Vila Isabel, e no seu melhor estilo, assinando um samba enredo.
Martinho para mim está entre os dois maiores compositores do gênero, junto dele, Silas de Oliveira, que já se foi.
Viva a Vila, viva Martinho e viva Noel!

Tom Zé libertado

Outubro 21, 2009

Vem ai o filme Tom Zé: Astronauta Libertado documentário dirigido pelo cineasta espanhol Ígor Iglesias Gonzaléz. A primeira exibição do filme no Brasil acontece nesse sábado, 24/11, no CineSesc, em São Paulo, dentro da programação da Mostra Internacional de Cinema. O documentário tem ainda mais três exibições programadas:

CINEMA DA VILA: 27/10/2009 – 19:50 (terça)
ESPAÇO UNIBANCO POMPÉIA: 30/10/2009 – 22:10 (sexta)
CINE BOMBRIL: 31/10/2009 – 12:00 (sábado)

Vale a pena!


O que é comunicação?

Outubro 19, 2009

Para aqueles que se interessam em novas idéias para comunicação entre consumidor e marcas, acontece a partir de amanhã na FAAP o evento New Brand Communication.

Vale a pena conferir, tem muito maluco nesse mundo pensando em coisas bacanas.


Vai assinar?

Outubro 16, 2009

Acabou de sair do forno o vídeo que passaremos na TV Cultura promovendo as assinaturas do Almanaque, e aí vai assinar?


Como você estará nas olimpíadas de 2016?

Outubro 16, 2009

Esse é um bom projeto de futuro, planejar nossas vidas e realizações olhando para as Olimpíadas de 2016. O que você estará fazendo profissionalmente, com quem estará namorando? Terá filhos? Morando onde?

Vou começar a pensar nisso.

Uma coisa eu já sei, estarei lá, com minhas filhas que terão 7 anos de vida!

Eu sei que já passou o entusiasmo, mas reparem como essa cidade é linda.


Zezinho, meu professor

Outubro 15, 2009

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Há algum tempo atrás resolvi que iria aprender tocar cavaquinho. Fui na loja, comprei um e me matriculei em uma escola de música perto de casa chamada Carlos Iafelice.

Matrícula feita, cavaquinho na mão lá fui eu para a escola. Chegando lá perguntei pelo professor e a recepcionista falou: Chama ele ai no bar ao lado.

Assim conheci Zezinho, um senhor baixinho meio gordinho. Ele durante as primeiras cinco aulas me passou as notas básicas e me fez escrever um monte de músicas em meu caderninho.

Até que um dia ele descobriu que eu sabia tocar pandeiro, a partir desse momento eu nunca mais toquei cavaquinho.

Eu chegava para a aula e ia chamá-lo no bar. Com ele já estavam mais uns dois amigos, completávamos a rodada de conhaque e subíamos para a sala de aula.

Lá eu ficava com pandeiro, Zezinho no cavaco, o outro pegava o violão e assim ficávamos a hora inteira da minha aula tocando e cantando.

Hoje é dia do professor, mestre Zezinho já se foi, mas continuo com a lembrança dele no meu coração.